Maternidades ´órfãs: a idealização das cuidadoras e as mães de Belo Horizonte
DOI:
https://doi.org/10.28998/rm.2025.n.17.17214Palavras-chave:
Maternidade, Mães órfãs, Destituição do poder familiar, Cuidado infantil, Belo HorizonteResumo
A responsabilidade principal pelo cuidado é colocada, em meio a expectativas sociais e reforços institucionais, às mulheres. No caso do cuidado infantil, essa responsabilidade se liga à maternidade. Quando mulheres não atendem a essas expectativas, que só podem ser atingidas por aquelas com determinadas características e em certas circunstâncias sociais, sua maternidade é negada pelo Estado. Considerando isso, este artigo busca compreender como ideais brancos e classistas de maternidade permeiam o caso das mães órfãs de Belo Horizonte, em que bebês são separados judicialmente de famílias que são predominantemente pobres e negras. Por meio do estudo desse caso, sob a lente do cuidado, observa-se como resultado que a responsabilização individual alocada às mulheres viola seus direitos e os de suas crianças. Conclui-se pela necessidade de distribuição do cuidado infantil e da garantia de amparo social de mulheres e suas famílias para assegurar os direitos de todos os envolvidos.
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