As minas no "começo do fim do mundo": te(n)sões e silenciamentos nas relações de gênero do movimento punk em São Paulo
DOI:
https://doi.org/10.28998/rm.2025.n.18.19968Palavras-chave:
Mulheres, Punks, Performances, SilênciosResumo
Este artigo analisa o papel de jovens mulheres no festival “O Começo do Fim do Mundo”, realizado em 1982, no Sesc Pompéia (SP), representado como marco simbólico da ebulição do movimento punk no Brasil. O texto parte de análises documentais, especialmente fotografias e registros audiovisuais, bem como fontes jornalísticas, fanzines, discos e demais vestígios históricos do evento. Com isso, o nosso objetivo é evidenciar como as relações de gênero foram tensionadas por garotas punks que ocuparam e transformaram espaços marcados por práticas machistas, classistas, racistas e outras formas de violências e sectarismos. A partir de um diálogo entre estudiosas(os) e o exercício de aproximações entre uma abordagem discursiva e historiográfica, mobilizamos conceitos como memória discursiva (Pêcheux, 1984), silêncio (Orlandi, 2007) e partilha do sensível (Rancière, 2014) para interpretar as performances, visualidades, enunciados e conflitos ocorridos durante o festival. Para tanto, focamos principalmente na atuação de mulheres como Meire, Dirce (baixista do grupo Juízo Final), Tina Ramos e a banda Skizitas, mostrando como suas presenças provocaram rupturas significativas ao tensionarem as normatividades de gênero (Butler, 2019; hooks, 2019; Wolf, 2018) vigentes dentro e fora do meio punk. Em nossas conclusões, destaca-se a revelação das resistências femininas articuladas em torno da ética do it yourself (faça-você-mesmo/a), do engajamento político-artístico contra o Estado e o patriarcado, da criação de redes transnacionais de solidariedade, além de uma identificação dos silenciamentos presentes em diferentes discursos de/sobre a participação dessas mulheres no contexto festival.
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