Inversões coloniais: reflexões sobre a separação, legalizada pelo Estado, de mulheres-mães e seus bebês em situação de cárcere

Autores

  • Luiza Ferreira Universidade de São Paulo
  • Adriana Marcondes Machado Universidade de São Paulo

DOI:

https://doi.org/10.28998/rm.2025.n.17.17240

Palavras-chave:

Maternidades, Inversão colonial, Racialização, Cárcere, Política pública

Resumo

Este artigo deriva de uma pesquisa sobre a separação imposta e legalizada pelo Estado de mulheres-mães e seus bebês. O diário de campo utilizado na pesquisa-intervenção serviu de material para subsidiar as análises sobre os efeitos dessa violência estruturante para a reprodução dos mecanismos do Estado e aqui compreendida como uma das formas do genocídio da população negra e pobre se efetivar. O paradoxo da racialização explicita a raça como força motriz que constitui essa problemática que é a denegação de maternidades e o subsequente roubo de crianças pelo Estado. Propomos a noção de inversão colonial para nomear as distorções em como são narradas as tecnologias de governo atreladas ao maternar que compõe a construção de maternidades violadas, e, sobretudo, denegadas, a partir da responsabilização daquelas racializadas e desumanizadas pela violência a que estão submetidas.

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Publicado

2025-12-26

Como Citar

Ferreira, L., & Machado, A. M. (2025). Inversões coloniais: reflexões sobre a separação, legalizada pelo Estado, de mulheres-mães e seus bebês em situação de cárcere. Revista Mundaú, 2(17), 81–98. https://doi.org/10.28998/rm.2025.n.17.17240

Edição

Seção

Maternidades, práticas de cuidado e Tecnologias de governo