Maternidades ´órfãs: a idealização das cuidadoras e as mães de Belo Horizonte

Autores

  • Clara Viana Lages Meirelles Universidade Federal de Minas Gerais

DOI:

https://doi.org/10.28998/rm.2025.n.17.17214

Palavras-chave:

Maternidade, Mães órfãs, Destituição do poder familiar, Cuidado infantil, Belo Horizonte

Resumo

A responsabilidade principal pelo cuidado é colocada, em meio a expectativas sociais e reforços institucionais, às mulheres. No caso do cuidado infantil, essa responsabilidade se liga à maternidade. Quando mulheres não atendem a essas expectativas, que só podem ser atingidas por aquelas com determinadas características e em certas circunstâncias sociais, sua maternidade é negada pelo Estado. Considerando isso, este artigo busca compreender como ideais brancos e classistas de maternidade permeiam o caso das mães órfãs de Belo Horizonte, em que bebês são separados judicialmente de famílias que são predominantemente pobres e negras. Por meio do estudo desse caso, sob a lente do cuidado, observa-se como resultado que a responsabilização individual alocada às mulheres viola seus direitos e os de suas crianças. Conclui-se pela necessidade de distribuição do cuidado infantil e da garantia de amparo social de mulheres e suas famílias para assegurar os direitos de todos os envolvidos.

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Biografia do Autor

Clara Viana Lages Meirelles, Universidade Federal de Minas Gerais

Mestranda em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, na área de Gênero, Sexualidade e Direito, como bolsista da CAPES. Orientadora Jurídica do Eixo de Direitos Reprodutivos e Sexuais da Clínica de Direitos Humanos da UFMG e advogada graduada em Direito pela UFMG. Pesquisa e atua na área de gênero, direitos reprodutivos e sexuais, feminismo da reprodução social, cuidado e políticas públicas.

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Publicado

2025-12-26

Como Citar

Meirelles, C. V. L. (2025). Maternidades ´órfãs: a idealização das cuidadoras e as mães de Belo Horizonte. Revista Mundaú, 2(17), 175–193. https://doi.org/10.28998/rm.2025.n.17.17214

Edição

Seção

Maternidades, práticas de cuidado e Tecnologias de governo