ENLACE CIDADE E CULTURA
O mundo contemporâneo entre representações, convulsões e extremismos
Resumo
No presente ensaio, parte-se do princípio de que a cidade contemporânea é vista, frequentemente, como reflexo da produção econômica desigual e desequilibrada socialmente. Repleta de heterogeneidades, ambiguidades e contradições, mas também de significados e significantes, a cidade neste século 21 evidencia uma sucessão de episódios que impactam e promovem alterações constantes no comportamento social e cultural dos indivíduos que a experienciam cotidianamente. Apesar do crescimento econômico que vigorou no século passado, hoje se observa vários fenômenos que incidem sobre o espaço urbano, em geral atribuídos às políticas neoliberais, ao aumento demográfico exponencial, aos padrões dissemelhantes de habitabilidade e consumo, a degradação ambiental e sucessivas crises climáticas, aos impactos para a saúde pública. Diante desse quadro referencial, observa-se, ainda, formas de hierarquia e controle de territórios e indivíduos, os quais promovem todo tipo de insegurança e, em última análise, medo. Contudo, a cidade ainda perpetua valores simbólicos, identidade e memória que impulsionam singularidades e totalidades, conforme teorizou Milton Santos (1996) e outros. No campo dos estudos urbanos e culturais, arquitetos e urbanistas, entre várias categorias disciplinares, constantemente desenvolvem estudos sobre a cidade na perspectiva material, relacional e representacional. Há certo consenso de que a cidade, desde a sua origem, configura-se dialeticamente como espaço que é: simultaneamente absoluto - existência material -, relativo - relação entre objetos -, relacional - espaço que contém e que está contido nos objetos -, como enunciou David Harvey (1980). No mundo globalizado, a percepção da cidade desencadeia diversificados fatos culturais que são apreendidos pelos sentidos a partir dos elementos da paisagem, morfologia urbana e modos de vida urbana, capazes de promover ética e esteticamente incontáveis narrativas e representações, reforçando a compreensão de dilemas sobre as distintas formas de apropriação territorial exercida por distintos grupos sociais, cuja materialidade expressa a dimensão simbólico-cultural.