Existências vendidas, infâncias vigiadas

o controle de crianças negras entre a escravidão e a liberdade tutelada

Autores/as

  • Emerson Ferreira Universidade Estadual do Piauí - UESPI

DOI:

https://doi.org/10.28998/rchv16n32.2025.0005

Palabras clave:

infância negra, arquivos judiciais, dispositivos de controle, arqueogenealogia

Resumen

A partir do fim do regime escravista, a utilização da força de trabalho infantil passou a configurar uma prática comum entre proprietários rurais e integrantes das elites do Brasil. Em várias províncias, ao longo dos anos finais da década de 1880, representantes das camadas dominantes, respaldados por dispositivos legais, firmavam contratos ou assumiam a responsabilidade legal pelos filhos de ex-cativos, oferecendo em troca vestuário, assistência médica, educação e uma compensação simbólica. Essas infâncias, que anteriormente eram vistas como ingênuas, começaram a ser identificadas como pertencentes às chamadas classes perigosas, conceito construído por discursos médicos, jurídicos e jornalísticos da época, que rotulavam crianças negras em condição de fragilidade como uma ameaça à estabilidade social. Através de vínculos legais de prestação de serviços ou mecanismos de guarda, muitas dessas crianças foram inseridas no trabalho doméstico ou agrícola, em um sistema que a própria imprensa da época denominaria como uma nova forma de servidão. Dentre essas trajetórias, destacam-se os casos de Modesto e Francisco, cujos registros processuais guardam vestígios dessas experiências.

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Publicado

2025-12-29

Cómo citar

Ferreira, E. (2025). Existências vendidas, infâncias vigiadas: o controle de crianças negras entre a escravidão e a liberdade tutelada. Revista Crítica Histórica, 16(32), 74–92. https://doi.org/10.28998/rchv16n32.2025.0005